Cirurgia Plástica na
Infância
Por um
desvio de raciocínio, a cirurgia plástica
vem sendo cada vez mais divulgada como se dicotomizada
em “cirurgia estética” e “cirurgia
reparadora”. Contudo, se nos reportarmos à
sua origem, só existe uma cirurgia plástica:
seu nome deriva da palavra grega “plastikós”,
que significa “dar forma”.
Ora, se assim o é,
qualquer procedimento inserido dentro dessa especialidade
é, necessariamente reparador e estético.
Essas considerações
se fazem necessárias para entendermos que até
mesmo a criança, não importa a sua idade,
se beneficia, reparadora e esteticamente, da cirurgia
plástica.
Dois são os campos
principais da atuação da cirurgia plástica
entre paciente de baixa idade: os defeitos congênitos
e as queimaduras.
Iniciemos pelos
defeitos congênitos.
Mercê da ampla
divulgação dos procedimentos médicos,
hoje já não encontramos, com tanta freqüência
quanto há algumas décadas atrás,
adolescentes e adultos com defeitos congênitos
não tratados e que lhe traziam enorme desconforto
social, complexos e limitações no estudo
e no trabalho. Especialmente as fissuras faciais e a
presença de alterações nos dedos
das mãos e pés, principalmente as sindactilias
(dedos que permanecem fundidos, um no outro, no nascimento)
e as polidatilias ( presença de dedos extranumerários
- à mais - nas mãos e nos pés)
Contudo, em cidades mais
interioranas ainda é possível encontrar-se
tais deformidades não tratadas.
Segundo pesquisas feitas
por OLDFIELD e TATE, em 1964 existia uma criança
com algum tipo de deformidade congênita, em cada
50 recém-nascidos vivos. Hoje, em que pese não
termos encontrado levantamento bem recente, podemos
afirmar que tal incidência deve ter se reduzido
bastante. Isso em função de uma melhor
assistência pré-natal, evitando-se para
as futuras mamães algumas situações
provocadoras de deformidades congênitas em seus
filhos.
Na formação
do novo ser, no ventre materno, pode-se dizer, esquematicamente,
que os três primeiros meses são os de formação
da criança. Ao final de três meses, o feto
já se encontra praticamente formado, passando
os seis meses restantes apenas em desenvolvimento, adquirindo
condições para sobreviver fora do ventre
materno.
Portanto, é no
primeiro trimestre que situações externas
podem ocorrer, desencadeando má-formações
congênitas para as quais já existia um
gene específico, mas que só poderia desencadear
o defeito se estimulado por alguma causa externa.
Essas causas podem ser:
desnutrição, desequilíbrios - para
mais ou para menos - de vitaminas ou sais minerais,
tabagismo, problemas hormonais da mãe como por
exemplo uma diabete descompensada ou uma alteração
de hormônio tireoideano. Doenças infecciosas,
especialmente as viróticas, são grandemente
responsáveis por alterações fetais.
Mas também não se pode deixar de dar uma
grande importância aos fatores psicológicos,
que podem provocar alterações bioquímicas
no organismo da mãe e conseqüente alteração
fetal. Sem dúvida um grande problema para os
dias atuais, repletos de stress, angústias existenciais
e depressões.
Daí a grande importância
de se procurar dar à mulher grávida, especialmente
nos três primeiros meses de gestação,
uma dieta bem balanceada, evitar o tabagismo e o uso
indiscriminado de medicamentos, sejam eles quais forem
e especialmente proporcionar a essas mulheres um clima
de paz e tranqüilidade que proteja o seu filho
e a ela própria.
Se porém ocorrem
deformidades congênitas, a correção
adequada e na idade correta são fundamentais
para o sucesso do tratamento e, sobretudo para evitar,
para a criança e para seus familiares, traumas
psicológicos mais graves que irão se acentuar
se a pessoa cresce sendo vítima de críticas
e comentários jocosos e de péssimo gosto
por parte dos amigos e companheiros de escola ou trabalho.
Entre as principais deformidades congênitas ligadas
à Cirurgia Plástica catalogamos as seguintes,
com as respectivas características e época
ideal de tratamento:
1)
Fissuras labiais e palatinas - Também
chamadas de lábio leporino (leporino = semelhante
à lebre, já que coelhos têm o lábio
naturalmente fendido) e goela de lobo, que é
a abertura maior ou menor no céu da boca.
Essas patologias devem
ser avaliadas precocemente pelos especialista, de preferência
logo após o nascimento, para se estabelecer um
programa de tratamento que inclui, não só
a cirurgia mas a utilização de próteses
que previnem o agravamento das deformidades. Geralmente
se opera a fissura labial entre 30 dias e 3 meses e
a fissura palatina entre 6 meses e 1 ano.
Contudo, mesmo se a pessoa
já passou desta idade, não se deve esperar
para procurar o tratamento imediato.
2)
Microtia ou agenesia de orelha - É
a ausência parcial ou total do pavilhão
auricular. Quase sempre ocorre somente de um lado.
O tratamento se inicia
geralmente aos 5 anos de idade, quando já houve
o completo desenvolvimento da orelha. Pode ser feito
através do uso de enxertos de cartilagem retirado
das costelas ou com próteses de silicone. Alguns
cirurgiões condenam o uso dessas próteses
porém quando se sabe utilizá-las, dão
excelentes resultados sem necessidade de se fazer uma
cirurgia bem maior e mais complexa, como é a
retirada de enxerto cartilaginoso. Por vezes necessita-se
de mais de uma cirurgia para se obter o melhor resultado.
3)
Orelhas em abano - É uma deformidade mais leve,
dos pavilhões auriculares, ocorrendo quase sempre
bi-lateralmente. É caracterizada sobretudo pela
ausência ou atenuação da dobra chamada
anti-helix, aquela que existe paralelamente à
borda externa da orelha. Sem ela a orelha fica como
uma concha plana e bastante afastada da cabeça,
dando um aspecto inestético ao seu portador,
provocando um sem número de apelidos e gozação
por parte de seus companheiros.
A cirurgia deve ser realizada
a partir dos 5 anos de idade, evitando-se os traumas
psicológicos que poderão advir. Ela é
relativamente simples e o resultado muito satisfatório.
4)
Epicanto - É uma prega que se
forma no canto interno dos olhos, às vezes reduzindo
sensivelmente o campo visual da criança. Pode
estar ligado a problemas mentais, necessitando por isso
de uma boa avaliação neurológica.
A cirurgia pode ser feita bem precocemente, mas o ideal
é que se faça em torno dos três
anos de idade, quando o desenvolvimento da criança
permite um ato operatório mais tranqüilo
e seguro.
5)
Hipospádia - É uma deformidade do pênis
que pode levar até mesmo à confusão
no estabelecimento do sexo do recém nascido,
se o defeito for muito acentuado. Ele se caracteriza
por uma curvatura do pênis para baixo e a abertura
do meato urinário no corpo do pênis e não
na sua extremidade. Em casos muito graves, a abertura
pode se dar até mesmo na bolsa testicular (escroto),
produzindo maior confusão na determinação
do sexo da criança;
O tratamento cirúrgico,
que será feito em diversas etapas, deve se iniciar
em torno dos três anos de idade, evitando-se graves
problemas na área sexual, para a criança.
Tratada corretamente, a hipospádia não
deverá comprometer a vida sexual do paciente,
na idade adulta. Contudo é indispensável
sua correta avaliação hormonal que poderá
apresentar alterações.
6)
Sindactilia e Polidactilia - São deformidades
dos dedos das mãos ou dos pés, caracterizadas,
a primeira pela falta de separação dos
dedos, podendo ser de dois ou mais. Comumente é
só de dois dedos. E a segunda, a polidactilia,
pela presença de dedos extranumerários
na mesma mão ou pé.
O tratamento deve ser
realizado após um ano de idade, sendo que no
caso de polidactilia é muito importante estabelecer-se
qual é o dedo melhor formado, evitando-se remover
aquele aparentemente em excesso, mas que pode ser exatamente
o que irá apresentar melhor função.
7)
Nevus - São as pintas, que podem ser pequenas,
mas também gigantes, por vezes tomando conta
de todo o tórax, dorso e abdômen da criança.
E às vezes grande partes dos membros. Essas lesões,
quando pequenas são facilmente tratáveis.
Quando gigantes, exigem um grande número de intervenções
para remoções parceladas - já que
a retirada total pode deixar graves seqüelas. Com
o surgimento das próteses expansoras de tecidos,
consegue-se fazer amplas remoções em um
só tempo cirúrgico. Oportunamente abordaremos
esse tema.
Outras deformidades,
por serem bem mais raras, deixam de ser citadas aqui.
As Queimaduras se constituem
no segundo campo principal de atuação
da cirurgia plástica em crianças, já
que a ocorrência de acidentes, especialmente domésticos,
provocam lesões mais ou menos graves, tanto quanto
à vida quanto às deformidades que podem
ficar como seqüelas dessas lesões. Deixaremos
para abordar a questão das queimaduras, em outra
oportunidade. |